Ele
(Elisa Lucinda)
Já começa a beijar meu pescoço
Com sua boca meio gelada meio doce,
Já começa a abrir-me seus braços
Como se meu namorado fosse,
Já começa a beijar minha mão,
A morder-me devagar os dedos,
Já começa a afugentar-me os medos
E a dar cetim de pijama aos meus segredos.
Todo ano é assim:
Vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,
Vem ele disposto a quebrar meus galhos
E a varrer minhas folhas secas.
Já começa a sopprar minha nuca
Com sua temperatura de macho,
Já começa a acender meu facho
E dar frescor às minhas clareiras.
Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,
Seu discurso sedutor de renovação,
Suas palavras coloridas,
E eu estou na sua mão.
Todo ano é assim:
Mancomunado com o vento, seu moleque de recados,
Esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,
Levanta-me a saia, beija meus pés,
Lábios frios e língua quente,
Alça minhas meias delicadamente
E muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!
É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,
Meu jogo de varetas.
Parece Deus, posto que está no céu, na terra,
Nas inúmeras paisagens,
Na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,
Dentro e fora dos meus vestidos,
Na minha cama, nos meus sentidos.
Todo ano é assim:
Já começa a me amar esse atrevido,Meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,
Meu preferido.